Olá!

Fantástico. Isso resume bem o que achei da trama. Sou fã do gênero policial e Edgard Allan Poe é considerado o pai desse gênero.

Cresci lendo O corvo, Assassinatos na Rua Morgue e por aí vai. Assisti ao filme de 2012, “O Corvo”, com Johh Cusack no papel de Poe, veja aqui o que achei do filme, e não sabia que Hollywood havia plagiado o autor norueguês Nikolaj Frobenius. Talvez seja por isso também que o livro é infinitamente superior ao filme.

Quem conhece um pouco da obra de Poe, sabe o quão sombrio podem ser seus textos e sua vida pessoal também foi uma desgraça só. Até sua morte foi misteriosa.

Achei um fato muito interessante, ter assistido novamente, há alguns dias, o clássico Amadeus, onde retratam Salieri sabotando Mozart, e na orelha do livro , vejo essa menção, e comparam o crítico literário Rufus Griswold como o Salieri de Poe.

Vou lhe mostrar o medo narra a vida de Poe, acrescida de alegorias e personagens, para de forma ficcional contar a sua vida. Órfão muito novo, presenciou a degradação de sua mãe pela tuberculose e teve a guarda concedida ao rico casal Allan. Apesar dele ter tido bons estudos, era bem fantasioso e com uma mente super agitada, e sempre quis ser escritor. Nunca se deu bem com seu pai adotivo que jamais reconheceu nele algum talento para nada, nem para literatura, teve a gota d’água para o rompimento e ser deserdado, quando foi à faculdade. Torrava o pouco dinheiro que o pai enviava em jogatina e bebedeira, propositadamente.

Enquanto morava com a família adotiva, conheceu Samuel, filho de uma das escravas, albino, e por superstição dos escravos, não ficava perto deles. Poe o ensinou a ler e Samuel tornou-se o maior fã , adorava ler o que Poe criava e sempre dizia que um dia sua obra seria famosa. Assim que Poe foi deserdado, Samuel foi embora com ele. Sem dinheiro e sem onde se abrigarem, acabaram se arranjando para passar a noite, mas , ao acordar, Poe notou que Samuel fugira com seu caderno, onde estavam todas suas criações.
Foi atrás de Samuel , lhe espancado e o abandonando. Anos se passaram sem nunca mais ter notícias dele.

Anos depois, Poe casado com sua prima e ainda mal reconhecido por seu trabalho, ouve sobre assassinatos que seguem à risca as suas histórias, ao mesmo tempo que degladiava com Rufus Griswold, crítico e também pastor, e era essa sua postura de pastor que condenava a obra de Poe, que ele achava excelente, mas impura, pelo teor macabro e sombrio.

Os encontros dos dois são memoráveis, Poe não gosta de Griswold, que era um fanático e além de tudo bem sucedido. Eles trocam farpas em sutilezas, que vão das conversas as publicações nos jornais.

Poe é cheio traumas e visivelmente perturbado. O livro foca bem na biografia, não se atém tanto ao clima de suspense, diferentemente do filme o Corvo e da série de tv The Following, baseados na obra de Poe.

O medo está constantemente emparedado dentro de nós, ele pensaria anos depois. Durante o dia procuramos dissimulá-lo, mas à noite os nossos pensamentos tomam o poder. Tudo o que fazemos é governado pelo medo ou pelo desejo de nos livrarmos dele.

O autor demonstra que fez uma bela pesquisa, e equacionou muito bem a ficção com a verdadeira história de Poe. Muitos trechos de suas obras são citados e a mais impressionante são as que se referem ao poema “O Corvo” . E também, para quem ainda não conhecia sua obra, a maneira como é escrita e o desfecho de Assassinatos na Rua Morgue são memoráveis.

Numa bela manhã de primavera, Poe se dá conta de que o final do conto deveria ser o seu início. A história deveria começar onde o crime termina. Todo o enredo deve então ser construído em torno da tentativa de resolver o enigma.

Mais uma vez aproveitando a citação na orelha do livro sobre ódio e admiração de Salieri, e fazendo um paralelo entre dois gênios da arte, supostamente vítimas, após a morte de Mozart, sua obra foi imortalizada, assim como a obra de Poe também foi imortalizada, enquanto o nome de Rufus Griswold, e de Salieri praticamente desvanescem, caem em esquecimento.

Disse o corvo, “Nunca mais”.

Um escritor espetacular, com uma vida e morte cercada de mistérios, Poe deve ser lido por quem é apreciador do gênero, e Vou lhe mostrar o medo , nos oferece, um pouco dessa história. Recomendo.

Capa, ficha técnica, sinopse

Vou lhe mostrar o medo

O mistério de Edgar Allan Poe

Jeg Skal Vise Dere Frykten

Nikolaj Frobenius
ISBN: 9788581301099
Editora: Geração Editorial
Número de páginas: 296
Encadernação: Brochura
Formato: 14 X 21 cm
Ano Edição: 2013

Sinopse

Edgar Allan Poe (1809-1849), o célebre poeta e autor de histórias de terror, bem como criador do gênero policial na literatura, é o protagonista deste romance de suspense psicológico, que discute os limites da criação literária e a responsabilidade moral da arte. Nele vemos o jovem escritor norte-americano afligido pela pobreza, angustiado com a enfermidade da sua frágil esposa e assombrado por um maníaco que comete assassinatos inspirados nos seus escritos, além de sabotado em sua carreira pelo crítico literário Griswold, que lhe dedica um misto de admiração e ódio.

Book Trailer

Boa leitura.

See ya!

Rosana Gutierrez

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ENTREVISTA COM NIKOLAJ FROBENIUS

Como e quando teve início a sua fascinação por Edgar Allan Poe?

A primeira vez que ouvi um conto de Edgar Allan Poe foi durante uma viagem que fiz com meu pai quando eu tinha 13 anos. Era outono e fomos para um chalé no bosque, na região leste da Noruega. Estávamos em meados de outubro e o clima encontrava-se úmido e sombrio. O chalé era isolado, não havia eletricidade e a atmosfera era soturna — perfeita para uma historinha horripilante. Não havia TV e nem radio no chalé, nenhum acesso a entretenimentos modernos, mas ao anoitecer meu pai tirava um livrinho da estante e lia um conto para mim. A história era incrivelmente simples, sobre um homem que vagueia pelas ruas da velha Londres, observando as pessoas, entusiasmado com a atmosfera febril da metrópole. Ele se senta num café para descansar. Na multidão à sua frente, vislumbra um homem muito velho percorrendo a praça sem rumo. Por curiosidade começa a seguir o velho através de ruas e vielas estreitas, durante horas. O velho apenas anda e anda, sem direção, sem propósito, e no final o narrador desiste. Não há objetivo, não há motivo algum, apenas caminhar sem fim. Esse é o enredo do conto de Poe “O homem na multidão”. É incrivelmente simples, quase absurdo. Mas o modo como foi escrito, o terror reprimido do narrador e as aleias escuras da velha Londres, causaram uma tremenda impressão em mim quando eu era garoto. Continuei a ler os contos de Poe e, mais tarde, interessei-me também por seus ensaios e poemas. Seus contos são de suspense psicológico e acho que foi essa combinação que me fascinou: o horror da alma.

 

O seu livro traz uma ligação bastante sutil entre Griswold, Poe e Samuel, o assassino. Griswold condena Poe por ser amoral como escritor e como poeta, ao passo que Samuel — o homem que comete assassinatos sangrentos inspirado pelos contos de Poe — é um personagem completamente amoral. Seria isso um modo sutil de sugerir que Griswold tinha razão em sua opinião de que a poesia deve sempre ter uma justificação moral?

No que se refere a Samuel, acho que as ações dele dificilmente podem ser compreendidas como algo além de um terrível mal-entendido. Mas creio que também demonstra a vulnerabilidade da literatura. Não existem garantias, para o escritor, de que ele será entendido, e textos às vezes podem ser mal interpretados de formas muito destrutivas. Mas há outra camada no romance que se ocupa — como você mencionou —, do subtexto amoral dos escritos de Poe. Assim, embora Samuel Reynolds seja com certeza o tipo de fã obcecado que nenhum autor deseja ter, ele foi influenciado pelo elemento misantrópico do universo de Poe. A atmosfera de perigo nos contos de Poe também está associada aos elementos de violência e horror da sua ficção, ele tem um autêntico instinto para isso. O que talvez explique por que Poe continua sendo um escritor tão controverso.

Quem são seus escritores favoritos e de que modo eles inspiram você?

Li Edgar Allan Poe quando adolescente, juntamente com Dostoievski e William Faulkner. O material “dark”. Mais tarde, passei a ler de forma mais abrangente e tive uma forte queda por escritores sul-americanos, como Borges e Bolano. Sempre apreciei o gênero noir e recentemente li muita coisa do escritor norte-americano de literatura pulp David Goodis. Sujeito perturbado. Escreve formidavelmente.

 

A sua ideia para o romance Vou lhe mostrar o medo é exatamente a mesma do filme O corvo, que estrelou John Cusack no papel de Poe, mas o seu nome não foi mencionado nos créditos. Foi plágio ou você fez algum tipo de acordo com os produtores do filme?

Bom, às vezes acontece de você ter uma ideia realmente boa e então alguém a retalha toda e finge que é dele. Isso não contribui muito para a minha boa opinião sobre a humanidade, mas não há dúvida de que existem por aí abutres à procura de ideias para adotar, roubar e devorar. Na verdade, o filme foi bem decepcionante, a ideia acabou sendo melhor que o próprio filme, o que me parece justo: se você rouba as ideias dos outros, receberá algum tipo de castigo no final.

 

Não são muitos os autores noruegueses conhecidos dos leitores brasileiros. Em sua opinião, quem são os melhores autores da Noruega e o que você tem a dizer sobre deles?

A Noruega é um país pequeno, mas somos abençoados com uma literatura bastante rica, tanto tradicional quanto contemporânea. Knut Hamsun, o Dostoievski norueguês, Henrik Ibsen e Sigrid Undset são provavelmente os escritores noruegueses mais célebres. O bom a respeito da literatura norueguesa contemporânea é que existem realmente muitos estilos e perfis, há escritores jovens que mergulham na vida privada do aqui e agora, mas existem também alguns que procuram dar vida nova a gêneros antigos, como o noir, o romance político, etc.

 

Você está com algum projeto novo no momento? Pode falar a respeito?

Estou concluindo um novo romance, intitulado A maldição. É um romance sobre um romancista que escreve um romance autobiográfico a respeito da infância dele e de um incidente particular em que uma escola foi incendiada. O culpado é expulso da escola e, mais tarde, dado como morto. Porém, muitos anos depois, o piromaníaco volta para se vingar do modo como foi retratado no romance, e o romancista é lenta porém inevitavelmente envolvido numa teia sinistra. Esse é o enredo, e no momento o meu trabalho consiste em tornar cada frase tão boa quanto possível.

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