Pessoal,

Hoje estreia a série de webcontos chamada MEDs, que conta histórias independentes sobre as diversas situações vivenciadas pelos profissionais da área de saúde.

Particularmente eu gosto muito do tema Medicina, pois para quem não sabe, sou fisioterapeuta de formação. Por mais que eu gostasse da minha profissão, a vida me levou para outros caminhos, chegando finalmente à escrita.

Vivencie o drama, a comédia, a frieza, a compaixão, a loucura e outros sentimentos que os profissionais da área médica passam ao lidar com os mais diversas e inesperadas reações dos próprios colegas de profissão e dos pacientes.

Boa leitura,

Um abraço

Dr. Marcio Berloffa por formação, Escritor de coração.

meds

1. A AULA

A jovem médica residente Dra. Rachel entra na sala dos médicos do Hospital São Jorge. Está abatida, com o jaleco e suas roupas cheios de sangue. Retira a touca, joga sobre a mesa e senta-se. Está em estado de choque. Olha para cima, parece buscar forças para o momento difícil em que está passando. Retira o estetoscópio e o joga sobre a cama.

A Dra. Rachel olha para o seu jaleco, cheio de sangue, e faz sinal de negativo com a cabeça. Pega o seu celular. Ameaça a ligar para alguém, mas para, o desliga e o coloca sobre a mesa. Pensa em silêncio sobre o ocorrido.

–       Como pode acontecer isso comigo? Eu fiz de tudo. Ainda não acredito no que aconteceu. Perder um paciente no final da cirurgia.

A Dra. Rachel caminha de um canto ao outro da sala. Senta-se na cama e permanece por alguns segundos. Levanta-se e olha para um quadro onde estão um poster de uma campanha de prevenção ao câncer de mama e alguns informativos do hospital.

–       Como vou olhar na cara dos familiares e dizer que não consegui salvá-lo.

A Dra. Rachel respira fundo e dá um soco na mesa. Nesse momento entra o Doutor Bill, chefe da residência do Hospital.

–       O que está acontecendo aqui? Está se achando a dona do hospital para fazer isso?

A Dra. Rachel fica olhando para seu superior e seus olhos se enchem de lágrimas. A residente fica muda por alguns segundos, senta-se em uma cadeira e fica pensativa.

–       Era só o que me faltava. O chefe da residência – pensa.

–       Posso saber por que a doutora está tristinha e bravinha?

 

Rachel continua em silêncio e olhando para Bill.

–       Não é nada.

–       Como não é nada? Olha a sua cara!

Bill pega um café, coloca o açúcar e mistura. Rachel começa a choramingar e passa a mão na cabeça.

–       Deve estar naqueles dias, toma um remédio para cólica que passa.

–       Não é nada disso. Me deixa em paz.

–       Perdeu um paciente?

Rachel fica em silêncio olhando para baixo.

–       Filho da mãe!

–       Perdeu, né?

–       Como você sabe?

Rachel permanece cabisbaixa.

–       Acho óbvio, não? Você está parecendo uma açougueira, está na cara que matou um paciente. Ah, e deixa eu advinhar, está com medo de dizer a família que matou o seu ente querido, não é?

–       Você acha fácil perder um paciente? Fazer de tudo e no final o paciente morrrer! Isso não é justo!

–       Justo ou não, são coisas que acontecem. Fazer o que? O que está esperando? Vai lá dizer a família.

A Dra. Rachel engole seco.

–       ?Chefe, pode ser fácil para você, mas eu estou muito chateada.

–       ?Mais do que a família do cadáver certamente não está.

 

A Dra. Rachel fica olhando e mexendo em seus estetoscópio.

 

–       Isso eu sei. Mas me coloco no lugar da família.

–       Isso é papo de residente que quer que o chefe sempre diga a família que um parente morreu.

O Dr. Bill fica em pé diante de Rachel, que permanece sentada.

–       Não estou pedindo nada disso.

–       Claro que está. Pare de frescura e peça logo.

Nesse momento entra a enfermeira Sabrina, que para na porta, com um prontuário em mãos, diante da Dra. Rachel e do Dr. Bill.

Dra. Rachel, você pode pode assinar o prontuário do paciente que acabou de falecer na cirurgia… O senhor…

O Dr. Bill dá um passo em direção da enfermeira. Nesse instante a Dra. Rachel se levanta rapidamente, corre na direção da enfermeira e fica na frente do chefe da resiência. A Dra. Rachel interrompe Sabrina antes que ela falasse mais qualquer coisa.

–       Sabrina, estou em uma reunião agora. Depois te procuro e assino o prontuário. Fica tranquila.

–       Só preciso da sua assinatura.

–       Já falei que não posso agora.

–       Desculpe, não sabia que estava ocupada.

 

A Dra. Rachel encaminha a enfermeira para fora da sala.

 

–       Posso continuar com a aula? – pergunta o chefe.

A Dra. Rachel começa a chorar.

–       Olhe para mim! Pare de faltar com respeito comigo se quiser ser uma médica de verdade. Pare de chorar e aprenda como se faz.

A Dra. Rachel pega um copo de água e toma sem parar até o final.

–       Primeiro, você vai até o banheiro e limpe a sua cara. Troque de roupa, porque você está fedendo e parecendo uma assassina. Desse jeito os familiares já vão começar a chorar antes mesmo de você falar alguma coisa.

A Dra. Rachel ameaça a se levantar.

–       Por favor, sente-se e espere eu terminar de falar. Você vai até a família e diz: a cirurgia não ocorreu como planejávamos, fizemos todo o possível para que ele ficasse bem, mas houve uma complicação e ele sofreu uma parada cardiac. Tentamos reanimá-lo mas o paciente não aguentou. Eu sinto muito. Aí você espera um pouquinho e depois diz que logo alguém virá explicar quais os procedimentos dali em diante. Entendeu? É muito fácil.

A Dra. Rachel se levanta.

–       Não vai nem me agradecer?

 

A Dra. Rachel tira a blusa e pega uma nova em no armário.

 

–       Chefe, sente-se um pouquinho.

O Dr. Bill se senta. A Dra. Rachel se agacha e coloca suas mãos sobre os joelhos de seu chefe.

–       Calma, não precisa me agradecer desse jeito.

–       Senhor.

–       Que foi? Por que essa formalidade toda?

–       Recebemos um paciente grave, de 72 anos, vítima de um atropelamento.

–       Ok, eu já entendi que aprendeu. Agora vá até a família e comunique que o paciente morreu.

–       Ele chegou com traumatismo craniano, pneumotórax e hemorragia abdominal.

O Dr. Bill tenta se levantar e a Dra. Rachel não permite, fazendo força com suas mãos sobre as pernas de seu chefe.

–       Eu tenho uma cirurgia importante agora. Posso ir?

–       Ele sofreu uma parada cardíaca e tentamos reanimá-lo por 45 minutos e…

–       E?

–       O nome do paciente é Wilson. Wilson Spencer.

–       Não é possível… meu pai!

–       Não foi assim que o senhor me ensinou?

 

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