Por Gianpaolo Celli, consultor do ALITERAÇÃO SERVIÇOS EDITORIAIS

Creio que a melhor capacidade de um profissional é conseguir relacionar assuntos aparentemente que não se conectam diretamente de modo a conseguir uma visão mais ampla do mercado.

Há um tempo atrás um escritor brasileiro que mora no exterior me questionou se era mais interessante lançar aqui ou lá. O curioso é que pouco tempo antes outro autor já havia me feito a mesma pergunta. O que perguntou por último mora no norte da Europa, de onde estão surgindo grandes nomes da literatura policial atualmente, enquanto o primeiro vive nos Estados Unidos.

Agora, FALA SÉRIO! Será que preciso comentar?

Até entendo que a dúvida tenha uma causa bem simples: mesmo acostumados ao novo idioma, é sempre mais simples escrever em sua língua materna. O problema é que para autor nacional fazer sucesso no Brasil, terá de literalmente tirar leite de pedra. E o pior, isso não acontece somente na literatura.

Mesmo o cinema nacional, apesar de estar tentando crescer, ainda está engatinhando. E pode acreditar que continuará assim por um bom tempo! Por que? Simplesmente porque não existe empreendedorismo algum aqui! Um exemplo disso foi uma entrevista que recente que passou na TV.

No caso o artista havia acabado de lançar um filme em circuito nacional – e vamos ser honestos, quando filme nacional entra em cartaz fica em muito menos cinemas do que os blockbusters importados – que esperava ser um sucesso. A trama? Uma versão nacional da ideia por trás de O Mentiroso, do Jim Carrey, lançado em 1997, só que no lugar de advogado, o protagonista era um político mentiroso que se vê obrigado de uma hora para outra a só falar a verdade. FALA SÉRIO! Depois ainda tem gente que reclama da falta de originalidade de nossos escritores!

Porque em minha opinião enquanto nosso cinema precisar do governo para bancá-lo, definitivamente não vai a lugar nenhum. E FALA SÉRIO! Com a literatura será a mesma coisa! Estamos engatinhando em relação a outros países, a figura do agente literário é quase inexistente aqui no Brasil, não existe nenhum tipo de empreendedorismo por parte das editoras, das grandes especialmente, que preferem gastar o triplo comprando os direitos da obra de um autor internacional, cuja resposta já pode ser verificada e, devido ao empreendedorismo – alheio e internacional evidentemente – ela pode até estar em processo de se tornar um filme ou série de TV, coisa que praticamente inexiste aqui no Brasil, e que gera um marketing que, além de sem custo, é muito superior ao pago.

Agora, FALA SÉRIO! Vamos ser honestos. Se em parte a culpa disso acontecer na literatura nacional, como ocorre com o cinema, é da falta de empreendedorismo nas editoras, assim como da falta de interesse das livrarias de botar em destaque o produto nacional, isso na realidade é um reflexo da falta de interesse, e porque não dizer de certo preconceito, do leitor brasileiro. Prova disso que é muitos afirmam peremptoriamente que “qualquer livro nacional é ruim” mesmo só tendo lido os que eram obrigados no colégio, que só são chatos, e em parte porque houve a devida explicação por parte dos professores.

Por outro lado, contudo, também sou obrigado a afirmar que o que os autores estão escrevendo, apesar deles acharem que é a oitava maravilha do mundo, em sua maioria não passa de uma cópia mal feita do que tem surgido lá fora (parece cinema, não é?).

Esta situação, por sinal, é resultado de uma tendência dos autores, em especial os iniciantes, de achar que basta publicar para seu livro ser um sucesso. Assim, ao invés de se investirem em si mesmos e em suas obras, procurando análises de texto, leituras críticas profissionais, e mesmo coaching durante processo de escrita, eles preferem, como li recentemente num blog literário “pôr a mão no bolso e, com sete mil reais, realizar seu sonho”.

O resultado? FALA SÉRIO! O sonho depois vira um pesadelo, porque já tendo seu lucro, as editoras que fazem coedição ou produção por demanda, nãose preocupam com o marketing, divulgação ou distribuição da obra! Já vi editora que faz isso colocando o livro a 20% do preço nem um ano depois do lançamento!

Concluindo: como já comentei mais de uma vez, não só o objetivo do escritor não deveria ser publicar, mas ser lido, pois só assim ele conseguirá desenvolver uma carreira; como também se percebemos que o resultado da equação escritor, editor, leitor não está satisfatório e as demais partes não vão mudar, a única maneira de fazer com que o resultado final seja diferente é nós como escritores mudemos.

Alguém tem de começar, afinal de contas.