Por Gianpaolo Celli, consultor do ALITERAÇÃO SERVIÇOS EDITORIAIS

Recentemente tive o prazer de ir à Argentina e, no tempo livre que tive, além de visitar lugares históricos, museus, bodegas e vinhedos, como todo bom rato de livraria, cada vez que via uma eu entrava, buscando descobrir não só como era a “cena literária”, mas também que livros estavam em alta e quais não estavam em comparação ao que está acontecendo no Brasil, assim como ver as semelhanças e diferenças dos mercados em relação aos autores nacionais. FALA SÉRIO! Em especial no que diz respeito à literatura fantástica.

Bom, inicialmente o que percebi foi que, com uma cultura mais focada no modelo europeu, o contrário da nossa, mais baseada no que acontece nos Estados Unidos, tanto os livros de colorir, que só achei em uma ou outra banca de jornal, a moda de livros de blogueiros/vlogueiros também me pareceu bem apagada, pois só encontrei um par de livros, em duas ou três das inúmeras livrarias que visitei, e sem destaque algum.

Já quanto à relação de livros internacionais e nacionais, em especial na área de ficção, as semelhanças são maiores entre nossos mercados, com lá também muito mais publicações de autores estrangeiros do que efetivamente de argentinos.

O que me fez pensar, entretanto, foi ao analisar alguns exemplares da literatura fantástica nacional argentina, que eu vi exatamente a mesma coisa que vejo nos livros aqui, e não somente os de escritores nacionais, mas também de diversos best-sellers estrangeiros, e que são apresentados por críticos, analistas literários e editores “clichês da literatura fantástica” que você “supostamente deve evitar”. E é deles que eu gostaria de falar.

Um dos primeiros clichês que diversos especialistas determinam como algo que definitivamente deve ser evitado é o do herói predestinado, ou “do escolhido”. FALA SÉRIO! Isso, pois é uma das maneiras mais simples de criar um personagem e começar sua história: A cidade, reino, país, mundo, universo está numa crise e uma antiga profecia fala de um escolhido que fará a paz retornar, ou qualquer outra coisa assim.

O problema desta estrutura vinda da mitologia antiga e conhecida pelo público desde quando foi cantada pelos menestréis nos clássicos de cavalaria – como o Ciclo Arthuriano em que temos não só a figura do próprio Arthur, o menino predestinado a ser rei que tira a espada da pedra, como também de Percival, o cavaleiro puro destinado a resgatar o Graal – é que mesmo sendo um clichê usado à exaustão, como o mercado pode dizer que é errado se ele mesmo o aceita em best-sellers atuais, como Harry Potter, por exemplo?

Outro clichê bastante criticado é “da data limite para a ação”. A crise surge e novamente uma lenda, mito, história diz que se nada for feito até uma determinada data nada mais poderia resolver a questão.

FALA SÉRIO! Esse novamente é um ótimo meio de tirar os personagens da monotonia do cotidiano, não é verdade? E um clichê, afinal de contas, pois no mundo real as pessoas sempre tendem a se acomodar às situações, por pior que elas possam se tornar.

Mesmo assim fica a pergunta: por que um autor nacional não pode fazer se ele lê isso o tempo todo em best-sellers atuais, como Percy Jackson, por exemplo?

Mais um clichê clássico é o de “ambientar sua história no exterior”. E aqui temos não só uma, mas várias questões. Primeiro, se onde a história acontece não tem uma importância efetiva para a trama, por que fazê-la acontecer lá? Especialmente se você nunca esteve neste país (ou cidade) e não sabe como descrever seus costumes, sua cultura de uma maneira exata.

O problema é que, assim como eu já coloquei acima, como a maioria dos best-sellers vendidos pelas editoras é importada, e apesar de histórias também acontecerem no exterior, elas são consumidas por brasileiros que em sua maioria não conhecem os locais, costumes e cultura apresentados.

Ou seja? Mesmo assim eu creio que as palavras do escritor russo Leon Tostoi, que dizia “fale de sua aldeia e estará falando do mundo”, servem de exemplo do que fazer.

Se você está pensando que eu vou bancar o advogado do diabo em relação a quase todos os clichês apresentados, está correto. Pois a impressão que temos é que FALA SÉRIO!, os críticos só sabem ser críticos quando falamos de livros desconhecidos. Se o assunto é um best-seller, ele pode ter uma quantidade absurda de clichês – alguém aqui se lembrou de Eragon? – e mesmo assim a maioria irá se calar, pois no fundo teme que ao criticar um sucesso isso soe como “dor de cotovelo”.

E estes são só três clichês que, apesar de presentes em inúmeros best-sellers atuais, devem sim ser evitados pelo autor que está começando no mercado. Eu tratarei de outros mais pra frente, apresentando sempre o contraponto do “advogado do diabo”, e você descobrirá por que!