Por Gianpaolo Celli, consultor do ALITERAÇÃO SERVIÇOS EDITORIAIS

Nos últimos quinze dias, em cima de uma comparação de nosso mercado literário/editorial com o argentino, tenho analisando alguns “clichês da literatura fantástica”, apresentando não somente os pontos negativos dos mesmos, como também o quanto eles aparecem no mercado, apesar das editoras se colocarem totalmente contra o uso dos mesmos.

Só para relembrar, comentei a respeito do clichê do herói predestinado, o famoso “escolhido”, como Harry Potter, por exemplo; do da “data limite para a ação”, cujo exemplo é o primeiro livro do Percy Jackson; falei a respeito de “ambientar sua história no exterior”, uma tendência de nosso mercado, que prefere a facilidade dos best-sellers importados a fazer o marketing dos autores nacionais; e de como isso levou ao clichê da criação de mundos medievais, os quais apesar de possuírem uma história distinta da nossa, são tão semelhantes que a história poderia se passar na terra. E falei então da tendência dos escritores de fantasia de escreverem trilogias, como aconteceu com grandes sucessos como Jogos Vorazes, Divergente ou His Dark Materials, de Bill Pullman, que são trilogias.

Outro clichê ligado à fantasia medieval que segue o mesmo padrão das trilogias e dos mundos medievais com características que não deveriam ter é o de “criação de línguas”. Apesar de haver recebido algumas criticas de gente que não entendeu a brincadeira que fiz da relação das trilogias à figura de Tolkien, aqui novamente temos ele como influência de inúmeras gerações de escritores que, apesar de não serem linguistas como seu mentor, eles tentam imitá-lo.

FALA SÉRIO!  Sem a devida pesquisa, para não dizer a devida base, criar meia dúzia de palavras ou mesmo um arremedo de língua sem lógica nenhuma termina por atrapalhar mais a história do que efetivamente ajudar. Segundo o que ouvi de críticos, a impressão normalmente que este clichê dá é que o escritor, mesmo sem a base, está tentando se exibir.

Mais um clichê muito usado, em especial em literatura fantástica é o do “órfão” ou dos “pais mortos”. É incrível como esse artifício é utilizado! É como se qualquer pessoa, ou personagem, com família, não tivesse razão para sair na famosa Jornada do Herói. FALA SÉRIO! Como se salvar sua família não fosse o bastante.

Novamente aqui temos inúmeros exemplos. No cinema, aproveitando a febre que está Star Wars, temos o exemplo de Luke Skywalker, que acredita não só ser órfão como só sai para a Jornada, como só faz após a morte dos tios.

Essa questão do órfão, inclusive, tem relação intima com a Jornada do Herói que, assim como a de diversos outros artifícios que, por não serem bem compreendidos, terminaram por se tornar clichês nas mãos de amadores. O protagonista ser sempre alguém sem amigos ou pouco popular é um exemplo de versão moderna deste clichê.

A base dele, inclusive é um elemento da mitologia conhecido como Herói Puro (alguém lembro de Percival?).

Isso, na realidade, como diversos aspectos das narrativas mitológicas, tem um fundo psicológico: Só aquele que não tem preconceitos é que não só está efetivamente aberto ao aprendizado, como também tem a boa vontade de adentrar ao desconhecido e retornar com a solução do problema.

Na verdade eu já ouvi gente falando que a própria Jornada do Herói é um clichê. FALA SÉRIO! Nada mais errado!

Da Apresentação do ‘Mundo Comum’ ao ‘Retorno Transformado’, passando pelo Chamado à Aventura, à Recusa do Chamado, ao Encontro com o Mentor, à Travessia do Limiar, aos Testes, Aliados e Inimigos, à Aproximação do Objetivo, que leva à Provação Suprema e culmina com a Conquista da Recompensa, depois seguindo ao Caminho de Volta, à Depuração e finalmente chegando ao Retorno Transformado do herói a seu cotidiano, nada mais é do que uma versão simplificada não só da vida. Em qualquer processo de aprendizado a pessoa sai de sua zona de conforto, voltando a ela modificada pelas novas experiências. A Jornada é importante, portanto, pois essa relação da estrutura da história com a experiência de cada um faz com que o leitor sinta uma ligação, uma empatia, com o que está acontecendo na história.

A questão é que a Jornada do Herói, como qualquer ferramenta de criação, não funciona sozinha. Ela é como um esqueleto que irá suportar a história, e usá-la achando que ela é o bastante e nada mais é necessário termina por fazer com que o projeto fracasse ao invés de ser bem sucedido.

Na verdade sem a devida noção do que se está fazendo, o uso destes clichês, ou mesmo das ferramentas de criação literária, as quais muitas vezes são confundidas com clichês, pode fazer com que a história se torne um “lugar-comum” (FALA SÉRIO! É exatamente por isso que as pessoas que não conhecem as chamam de clichês), e como eu já coloquei, os elementos que serviriam para originalmente chamar a atenção do leitor, terminam por afastá-lo.

É exatamente por essa razão que o escritor iniciante, que ainda não as domina, deve pensar em evitá-los se tem como objetivo se tornar um profissional.

Sei que no fundo o que todo autor deve fazer é escrever sobre o que gosta. O problema é que deve fazer isso com consciência, não só do que está fazendo, mas também de que tem controle sobre as “ferramentas” que está usando. Afinal, um clichê bem trabalhado, ou até subvertido, pode ser a diferença que ao invés de impedir, garantirá a publicação de seu livro, mas para que isso aconteça o escritor não só deve dominar o processo de criação literária, como também fazer com que o original passe por processos de leitura crítica severos para que se encontre e afine cada elemento do mesmo.