Por Gianpaolo Celli, consultor do ALITERAÇÃO SERVIÇOS EDITORIAIS

Semana passada recebi uma mensagem a respeito de uma palestra sobre Ponto de Vista que ministrei no 1o Congresso Nacional de Escrita Criativa e gostaria de falar a respeito.

Além de Ponto de Vista, falei sobre escrever em primeira, segunda e terceira pessoa e terminei comentando a respeito de outros aspectos, como a importância da empatia do leitor para com o personagem, a importância da estruturação da trama para manter o leitor curioso e ferramentas como corte de cena e sequência.

Na mensagem, comentando a respeito da palestra, feita por um escritor amador, este comentava que quem busca literatura de entretenimento não está ligado em técnicas literárias, se algum aspecto da história é ou não clichê, e ainda que, se a pessoa busca “alta literatura”, deveria ler os clássicos.

FALA SÉRIO! Na verdade, segundo o que os críticos colocam, é exatamente o inverso. Todas essas ferramentas, cujo objetivo é cativar o leitor, estão ou estariam presentes em obras voltadas às massas, cuja leitura é focada no entretenimento e não em grandes questões filosóficas. Ou seja, na baixa ou subliteratura, e não na alta literatura.

Na verdade é como se qualquer literatura que agradasse as massas, e que, portanto, vendesse, fosse necessariamente ruim. E as obras que não se importam em vender, trabalhando aspectos psicológicos, sociológicos ou históricos, fazendo o leitor se questionar a respeito de sua realidade, fossem “alta literatura”. Como se não se pudesse escrever para as massas, deixando questões subliminares na trama que os leitores preparados entenderão.

O mesmo acontece com a Fantasia. Apesar de existirem inúmeros subgêneros que normalmente se interpenetram, uma definição que normalmente confunde as pessoas é a da Alta e Baixa Fantasia (High and Low Fantasy). Normalmente as pessoas acham que a Alta Fantasia é, pela qualificação de “alta”, mais adulta do que a “baixa fantasia”, que seria mais infanto-juvenil.

FALA SÉRIO! Nada mais errado. Na verdade é exatamente o oposto. A Alta fantasia (High fantasy) tem histórias com grandes aventuras épicas e muita magia, e normalmente são bem maniqueístas (bem contra o mal), sendo considerada pelos críticos como “baixa literatura” e a Baixa fantasia (Low fantasy), que possui menos elementos estereotipados da fantasia épica, com histórias e personagens mais reais, e quando existe a presença do fantástico, ela é explicada com base na ciência, sem dar espaço ao misticismo ou ao exagero, ou seja, bem mais adulta, ou “alta literatura”.

E isso não quer dizer que não se possa fazer uma High Fantasy, cheia de personagens épicos, criaturas mágicas e misticismo, e mesmo assim manter um pé na realidade, fazendo os personagens mais humanos, com fraquezas, crises éticas e morais.

Na verdade foi daí que surgiram muitos dos anti-heróis dos quais gostamos tanto, como Han Solo e John Constantine. Inclusive, estes dois exemplos me lembraram de três casos que servem de exemplo aqui:

– Em 1961 os membros do júri do Nobel esnobaram J.R.R. Tolkien, cuja obra recentemente foi considerar a melhor do século XX.

– Após a história em quadrinhos Sandman, de Neil Gaiman, vencer o World Fantasy Award 1991, no ano seguinte o regulamento do prêmio foi alterado para impedir a sua “contaminação” pelos quadrinhos, considerados pelos críticos como uma “forma artística inferior”.

– Da mesma maneira, vários escritores tiveram uma crise quando história em quadrinhos Maus, de Art Spielgman, venceu o Prêmio Pulitzer e foi indicada ao National Book Critics Circle Award.

Na realidade, parafraseando o que Oscar Wilde colocou no prefacio de seu O retrato de Dorian Gray: “Não existe livro moral ou amoral. Os livros são bem ou mal escritos. E isso é tudo.”

Ou seja, não existe alta ou baixa literatura, ou a literatura culta e a para as massas, mas com ou sem qualidade, independente do gênero, do público alvo, do entretenimento que proporcionam e de o quanto vendem.

FALA SÉRIO! O ponto é que, independente do que o escritor quiser escrever, alta ou baixa literatura, se ele busca publicar e vender deve não só aprender, ma dominar as ferramentas que tem como objetivo manter o leitor curioso em relação ao universo apresentado, à trama, aos personagens que estão vivendo a história.