Por Gianpaolo Celli, consultor do ALITERAÇÃO SERVIÇOS EDITORIAIS

Há algum tempo atrás, após terminar minha quinta ou sexta leitura do ano, resolvi passar o livro Warriors – Os Selvagens da Noite na frente de minha enorme “lista de espera” de leitura.

A razão disso foi porque durante uma pesquisa descobri que, além da tratar-se um uma história cujos personagens basicamente são anti-heróis (coisa que sabia desde que assisti ao filme baseado na obra, há mais de vinte anos) o autor, Sol Yurick, usou muito de sua experiência em primeira mão como assistente social para trabalhar os personagens. Ou seja, FALA SÉRIO! Estamos falando de anti-hero?is de carne e osso baseados em pessoas reais!

E como já disse inúmeras vezes, como prefiro chegar o mais próximo da fonte da informação, um livro escritor por alguém com experiência pessoal era algo que eu não poderia deixar para trás.

Adquiri o livro em questão e, ao começar a leitura me deparei com um prefácio gigantesco do autor discorrendo a respeito da obra. Normalmente ignoraria e seguiria diretamente para a história, mas como já comentei a respeito aqui há algum tempo, palavras do autor em primeira mão a respeito de sua obra normalmente revelam dicas, e o melhor, em perspectiva, que na maioria das vezes se mostram muito mais efetivas e relevantes a outros escritores do que as apresentadas nos livros e cursos para escritores, cuja maioria dos exemplos é fabricada para ilustrar a questão.

O primeiro dado relevante apresentado é que Sol Yurick comenta que o The Warriors ficou “engavetado” em sua mente por aproximadamente quinze anos antes de ser escrito. Lembro que comentei há algum tempo atrás que o mesmo aconteceu com Orson Scott Card e o livro Ender’s Game – O Jogo do Exterminador.

De qualquer modo, após este período de quinze anos, o The Warriors foi escrito, após a pesquisa, em basicamente três semanas. Como o próprio autor comentou que seu livro anterior, Fertig (comentarei um pouco a respeito do que ele falou da obra), demorou mais de um ano para ser escrito, três semanas de produção quer dizer uma coisa: FALA SÉRIO! A história estava madura em sua cabeça.

De qualquer modo, após pedir ajuda a “vários amigos que trabalhavam como oficiais de condicional” Sol achou que o resultado das entrevistas eram o que “um membro de gangue achava que eu (um “espião” como eles achavam que também o eram antropólogos e sociólogos) deveria ouvir”. Ele resolveu procurar outro modo de efetivamente obter informações em primeira mão.

O que ele fez? Alugou um furgão velho, fez uns furos nos lados, estacionou bem cedinho no território das gangues e, lá dentro, ficou observando e escutando, de modo a conseguir “o jargão, os ritmos do discurso, o tipo de inglês (ou seria ganglish? – uma brincadeira com “english”, “inglês” para se referir à gíria usada pelas gangues) e assim por diante”.

E tem escritor que quer considerar pesquisa o que acha na Wikipédia! E não vou nem dizer que se precisa ir a campo, como aconteceu na pesquisa do The Warriors, mas FALA SÉRIO! Pelo menos use material com bibliografia para provar de onde veio a informação.

A respeito do processo de produção, ele comenta que usou uma ferramenta de gerenciamento corporativa na qual fazia um planejamento da trama usando uma grade (imagino que como o Excel) onde, no topo de cada caixa (a célula do Excel) colocava a cronologia e o trecho da trama e depois, ao lado, diversas informações que serviriam como ideias, metáforas, coisas como mudanças de clima e degradação de algum material orgânico, de como a dar ao leitor uma ideia do tempo passado na história.

A respeito disso eu tenho que lembrar que sempre comento que, como a pesquisa, a organização da história antes ou durante o processo de desenvolvimento é uma ferramenta importantíssima, que pode ajudar até no caso do infame “bloqueio”. Pode até ser que tenha sido esta ferramenta tenha sido o porquê dele ter conseguido escrever o romance todo em três semanas.

Finalmente Sol Yurick faz dois comentários a respeito do editor:

Inicialmente ele coloca que o editor reclamou a respeito de um casal de irmãos que, devido ao pouco espaço de sua casa, dividindo uma cama, que o editor disse que era um tabu que poderia acabar com o livro. Cena que ele até certo ponto persistiu em manter, mas terminou por mudar de ideia.

Depois ele comenta que foi o editor também que escolheu a citação introdutória da obra, algo que o mercado considera importante para construir a reputação de um livro.

Ainda sobre o editor, ou os editores, e falando da outra obra de Sol Yurick, Fertig (pensou que eu tinha esquecido?), ainda no prefácio ele comenta que o livro foi rejeitado vinte e sete vezes.

Comenta também que não só começou a desesperar-se e duvidar de si mesmo, como também que percebeu ao ler as cartas de recusa que recebia (FALA SÉRIO! Quando as editoras ainda não mandavam aquelas cartas de resposta padrão) que “se compilasse todas as partes que os editores criticavam, ou desconsideravam, nas cartas, meu livro era completamente terrível; mas se somasse as partes que os editores gostavam, meu livro era um trabalho de gênio”.

Ou seja: não se preocupe quando começar a receber “nãos”, fazem parte do processo editorial.