Por Gianpaolo Celli, consultor do ALITERAÇÃO SERVIÇOS LITERÁRIOS

Já há algum tempo diversos grandes jogadores do mercado editorial vêm considerando a respeito da consignação. O problema é que apesar de um comentar que irá começar a usar e outro que este é um dos grandes males do mercado, pouco se falou a respeito de como ele afeta o mercado de uma maneira geral.

Vou explicar então, considerando inclusive que um dos maiores jogadores do mercado editorial, a Saraiva, praticamente só compra de distribuidoras, o que agrega mais um elemento na equação de mercado.

“Mas qual é a equação?”, você pode questionar. Vamos lá então!

A editora escolhe um original e produz, ou manda produzir (falarei sobre isso mais abaixo) certa quantidade de um livro, de acordo com como ela acha que será a resposta do público versus o preço unitário do mesmo.

“Como assim?”

É evidente! Do mesmo como que comprar no atacado é mais barato que no varejo para o cliente final, para a editora produzir ou mandar produzir uma quantidade maior abaixa o valor individual do livro. A isso se deve contrapor que o livro leva um dado tempo para ser vendido, se empatar uma quantia de dinheiro maior do que o que deveria isso pode criar problemas no fluxo de caixa da editora, o que poderia terminar com sua falência. Que FALA SÉRIO! Foi exatamente o que aconteceu com a Cosac-Naify.

Agora, ao chegarem na editora, os livros tem três opções: serem vendidos diretamente ao cliente pelo site, serem consignados diretamente com a livraria (a 50% do valor de capa) e, como é mais comum, serem consignados a uma ou mais distribuidoras (a 60% do valor de capa) que por sua vez consignarão às livrarias.

É ai você interrompe com mais uma pergunta: “Peraí! Quer dizer que a livraria fica com praticamente metade do preço do livro?”

FALA SÉRIO! SIM!

E antes que você questione a respeito do porque a distribuidora faz isso, pois já toma 10% do preço de capa, a resposta é: porque além de haver redes que só negociam com distribuidoras (pois podem fazer consignações mais variadas com quantidades maiores), existem grandes redes em que a negociação é feita loja a loja. Agora, imagine a logística de controlar a consignação de centenas de livrarias com contratos feitos as vezes título a título…

FALA SÉRIO! É UMA VERDADEIRA INSANIDADE!

O problema é que com o livro entregue, normalmente o prazo de pagamento das distribuidoras é de 60 a 90 dias e das livrarias é de 90 a 120 dias. Assim um livro que você, leitor, compra na livraria em dezembro, para dar de presente de natal, é acertado em janeiro e pago à distribuidora em abril ou maio. A distribuidora, por sua vez, só vai pagar entre junho e agosto.

Ou seja, FALA SÉRIO! Estamos falando de uma demora de praticamente meio ano!

E isso sem contar que o livro ter sido vendido no natal (no caso de nosso exemplo) não quer dizer que ele tenha sido entregue à livraria, ou a distribuidora na época. O mesmo pode ter sido consignado originalmente meses antes, para não dizer anos, no caso da distribuidora, que mantém os livros da editora para negociação.

E pior: como comentei acima, caso a editora não tenha um parque gráfico (como a maioria não tem), os livros são comprados (não consignados) de uma gráfica, que fatura o mesmo de acordo com a quantidade (evidentemente), mas que normalmente acontece entre 60 ou 90 dias.

Isso quer dizer que enquanto o pagamento da editora é feito em três meses, mesmo que o livro seja vendido na hora pela livraria, a editora demorará praticamente meio ano para receber o dinheiro.

Aí estão as duas causas (a baixa quantidade impressa, devido ao brasileiro ler pouco, e a demora no recebimento do livro distribuído) do porque o livro é caro no Brasil.

E caso você esteja se questionando a respeito dos Direitos Autorais do escritor, como as editoras nacionais atualmente trabalham o modelo vigente nos Estados Unidos de um acerto a cada seis meses, os livros pagos à editora dentro do período são acertados ao escritor no final do mesmo.

Assim, se considerarmos o exemplo do livro vendido em dezembro, como foi acertado em janeiro, se for pago em junho fará parte do DA do primeiro semestre; mas se for acertado em agosto, só será pago no final do ano corrente, praticamente um ano após ter sido adquirido pelo leitor. FALA SÉRIO! É triste, mas é assim que o mercado editorial funciona atualmente.

Não é à toa, inclusive, que se ouve falar tanto na opção da publicação independente, que mesmo grandes autores têm considerado.