Por Gianpaolo Celli, consultor do ALITERAÇÃO SERVIÇOS EDITORIAIS

Apesar do artigo original não ser novo, o assunto sempre volta à tona. Assim, gostaria de falar hoje a respeito de um artigo que já há algum tempo saiu no site do jornal inglês The Guardian: “From Paying The Bills, To £2,000 A Day: Making A Killing From Self-Publishing”.

Traduzindo, o título ficaria algo como “De pagar as contas a 2.000 libras por dia: Um Grande Sucesso da Auto-Publicação”. Para quem quiser ler o artigo original (em inglês) é só CLICAR AQUI.

O artigo em questão apresenta a última obra do escritor inglês Adam Croft, Her Last Tomorrow, que segundo o próprio autor em poucas semanas tornou-se um best-seller estratosférico. Escrita no quartos dos fundos de sua casa com objetivo de pagar sua hipoteca, em 20 semanas o livro vendeu 150 mil cópias e ganhou um contrato com a Amazon.

“Mas por que ele está comentando a esse respeito?”, você pode se questionar. FALA SÉRIO! Porque não só isso mostra uma tendência no mercado editorial internacional do qual eu mesmo tenho comentado, como também o artigo mostra uma comparação do que está acontecendo com o autor com o restante do mercado, deixando claro com isso, como nós do Aliteração sempre gostamos de salientar, que apesar de um caso ser digno de nota, ele muitas vezes não pode ser considerado como exemplo ou regra , quando é, na realidade, uma exceção.

Mas voltando ao caso: segundo Adam Croft, quando escreveu seu primeiro livro em 2011, ele sequer chegou a pensar em enviá-la para uma editora. Por ser sua primeira publicação, ele nunca imaginou que alguma editora se interessaria então procurou a plataforma de autopublicação Kindle Direct Publishing da Amazon e publicou por conta própria.
Apesar de poucas no início, as vendas chegaram a uma quantidade que fez Croft, que na época trabalhava num quartinho nos fundos de sua casa como consultor de marketing, fazendo entregas num site de vendas digitais e como ator, a decidir que escreveria em tempo integral. Desde então ele autopublicou mais oito livros, sete dos quais são partes de suas séries Kempston Hardwick, Knight e Culverhouse.

Ainda segundo o artigo, apesar da Amazon não divulgar números, Croft comentou que vendeu cerca de 350.000 livros em cinco anos, até que seu romance mais recente, Her Last Tomorrow virou o jogo e em poucos meses vendeu 150.000 cópias. O autor estima, inclusive que as vendas deste ano devam chegar a um milhão de libras (mais de 5 milhões de reais).

Só para comparar, segundo ele em 2015 as vendas chegaram a 20.000 libras (pouco mais de 100 mil reais).

Para colocar isso em contexto o artigo comenta que, segundo uma pesquisa com quase 2.500 escritores do Reino Unido, em 2014 o rendimento médio do autor profissional era de 11.000 libras ao ano (aproximadamente 56.000 reais), enquanto que um levantamento com autores norte-americanos de 2015 descobriu que o rendimento médio havia caído e a maioria deles vivia abaixo da linha da pobreza (só para constar, eu pesquisei e nos EUA, para uma pessoa estar abaixo da linha de pobreza ele deve ganhar menos do que US$ 11.334, quase R$ 40 mil reais num ano).

FALA SÉRIO! É aqui que a coisa fica interessante, pois nos dá números para uma comparação, mostrando que apesar de um escritor poder tornar-se um best-seller simplesmente publicando na Amazon (em inglês), ele também mostra as diferenças dos mercados editoriais dos EUA e a da Inglaterra. E não para por ai, porque o artigo ainda indica que, segundo um novo relatório da Enders Analysis, publicado pela Bookseller, 40 dos 100 ebooks mais vendidos na Amazon EUA em março foram autopublicados.

E como deveria, o artigo contrapõe a própria colocação indicando que especialistas afirmam que uma “esmagadora maioria” destas autopublicações “são terríveis! Um lixo”. Ou seja, FALA SÉRIO! Como já comentei inúmeras vezes, recentemente inclusive, Sim! Ferramentas de autopublicação como a Amazon ou mesmo plataformas como o Wattpad podem ser uma porta de entrada para o mercado, porém se deve tomar cuidado e antes de publicar passar o livro por profissionais do mercado literário (para Leituras Críticas, Preparação de Texto e Revisão), de modo que o texto fique afinado com seu publico, e não se torne mais uma estatística dentro da já mencionada acima “esmagadora maioria de lixo” que atualmente existe na internet.

Finalmente, e FALA SÉRIO!, este é outro ponto importante que me chamou atenção no artigo, foi que Adam Croft faz uma análise do mercado bastante interessante, colocando que “como desde que as prensas foram introduzidas tem havido muito pouca mudança… os editores tiveram uma vida muito fácil por um longo tempo… durante o qual enfiaram tanto suas cabeças na areia que só agora eles estão mudando, enquanto nós (autores) já estamos abraçando a mudança (faz tempo)”.

E olha que com isso ele só comenta a respeito do mercado de língua inglesa, no qual os editores efetivamente escolhem obras do zero e apostam nelas, porque atualmente aqui no Brasil o que vemos é que os editores são, em sua maioria (evidentemente que existem exceções), compradores que só sabem escolher best-selllers internacionais.

Sei que este é só um caso, sendo, portanto, mais uma exceção do que uma regra, mas também mostra as possibilidades do mercado de uma maneira geral. Então, vamos esperar que, como já está acontecendo lá fora, aqui também as editoras entendam e comecem a postar efetivamente em nossos escritores.