Por Gianpaolo Celli, consultor do ALITERAÇÃO SERVIÇOS EDITORIAIS

Essa semana eu peguei para ler um dos livros que havia achado na Bienal. Um de não ficção, sobre Escrita Criativa. Afinal de contas, apesar de escrever já faz mais de vinte e cinco anos e haver publicado há mais de dez, sei que o processo de desenvolvimento da escrita é algo que nunca para. Ou como diria o paradoxo socrático “scio me nihil scire” ou “só sei que nada sei”. Mesmo assim tenho que dizer: tudo bem que até por ser cabeça dura eu terminei o livro, mas FALA SÉRIO! Que perda de tempo!

Quer dizer, eu sei que ter criatividade é importante e que a ‘síndrome da folha ou tela em branco’ é o terror dos escritores, mas a impressão que tive foi que estava lendo algo que mais parecia copiado de algum site de autoajuda para escritores do que algo efetivamente testado. Lembrou-me muito, inclusive, alguns bate-papos, dicas e até palestras que fui antes de fazer o Caminho de Santiago, em meados 2007.

Vou explicar. Todos na época davam dicas e apresentavam colocações sobre o que usar e como fazer que eu já havia lido em livros sobre o Caminho de vinte anos antes. Coisas como usar duas meias e passar vaselina entre os dedos, para evitar a fricção.

Por que esses dois exemplos são interessantes?

Porque em 2007 já existiam meias com solado mais grosso feitas especialmente para caminhadas, assim como botas mais modernas, diferentes dos coturnos que eram padrão três décadas atrás nas quais era importante passar vaselina entre os dedos nas caminhadas. Quer dizer vaselina fecha os poros, o que faz com que o suor não consiga sair e a pele no local fique mais sensível e propensa a bolhas, que é exatamente o que se quer evitar.

Ou seja: FALA SÉRIO! É gente falando do que leu, mas efetivamente não testou. Ou de algo que até era válido anos antes, mas que devido às novas tecnologias, não é mais.

E é exatamente esse tipo de coisa que muitas vezes eu vejo acontecendo em literatura. Eu mesmo já comentei a respeito de uma dessas dicas tempos atrás, a da ‘escrita livre’. E olha que essa é ainda mais útil do que as que eu li nesse livro de Escrita Criativa.

Dicas como ‘procurar uma matéria no jornal para escrever uma história’ ou ‘buscar uma palavra qualquer no dicionário e escrever algo com ela’.

Imagine que você está com um bloqueio e não consegue acertar alguma cena, sequência ou mesmo o início de um capitulo do seu livro. FALA SÉRIO! O que você vai fazer? Procurar alguma noticia no jornal para te dar uma ideia? Ou uma palavra no dicionário e adequar sua história a ela? Acho que não, não é verdade?

Para quem está se perguntando sobre o processo da ‘escrita livre’, a ideia me parece ter surgido do conceito do ‘brain storming’ uma reunião em que se tenta abordar um assunto sem censura, buscando ângulos inusitados que resolvam uma questão que antes parecia insolúvel.

Não que a ideia não seja boa (apesar de o processo de escrita ser solitário), eu só não acho que se você está empacado na descrição de uma cena ou de uma ação, ficar fazendo “brain storming” vai resolver seu problema. E é exatamente aqui que eu comento da necessidade do escritor de ler ficção. Porque vendo ‘o que’ ou ‘como’ outros autores trabalharam as cenas deles, você pode ter ideias que te ajudem no desenvolvimento das suas.

Como eu faço?

Porque comigo, seja na literatura ou na gastronomia, porque eu também sou chef, eu só apresento ‘receitas’ que eu mesmo já testei. O que faço, então, é fechar os olhos (metaforicamente) e imaginar a cena como se ela estivesse acontecendo num filme, do início ao fim, com os personagens se movendo, interagindo, conversando… E com isso claro na cabeça eu começo a colocar a cena no papel.

Isso quer dizer que livros teóricos sobre escrita não servem para nada?

Não foi o que eu disse!

O que eu estou dizendo, e dando alguns exemplos, é que alguns deles parecem servir para algumas situações ou pessoas e não para outras. Ou que, como acontece com os livros de autoajuda ou as biografias de gente bem sucedida, só ler não vai levá-lo a lugar nenhum (eu trabalharei esse conceito mais para frente). É como eu digo: FALA SÉRIO! Se livro de autoajuda realmente resolvesse alguma coisa, existiria só um e não inúmeros. E sobre as biografias, pessoal, ler sobre a vida do Bill Gates ou do Steve Jobs não fará de você mais esperto ou empreendedor.

Mas esse foi o caso de um livro, uma situação. Mais para frente eu falarei de outras.