[Bastidores literários] DO RPG PARA A LITERATURA – FUNCIONA? COMO FAZER? Parte 1


Parece que certos assuntos sempre voltam à tona. Esta semana o que retonou foi a influência do RPG na literatura. Cá estava eu, trabalhando, quando surgiu uma mensagem de um escritor que queria transformar sua aventura de RPG em literatura. Para variar, como o assunto é interessante e pode ser uma dúvida de mais pessoas, eu resolvi comentar a respeito do que conversamos.

FALA SÉRIO! Eu me recordo que não só já comentei aqui, num artigo sobre adaptação de outras mídias para literatura, como essa foi uma pergunta que respondi numa das primeiras palestras que ministrei: “Gênese – a criação de mundos fantásticos”, já há quase uma década. Mesmo assim, numa época em que não só a série Wild Cards está voltando às livrarias com toda a força, como até autores brasileiros já publicaram adaptações de jogos de RPG, o assunto está longe de se esgotar.

Para falar a verdade eu mesmo já publiquei a adaptação de um jogo de RPG que mestrei. A noveleta “O Cavaleiro e o Senhor do Inverno”, que também foi uma aventura-solo publicada pela revista Dragão Brasil, não só saiu em dois livros, em 2009 e 2012, como atualmente está disponível na Amazon não só em português, mas também em inglês.

Eu sei que parece difícil alguém desconhecer o RPG, pois seu sistema de criação de personagens atualmente é usado até por jogos eletrônicos, mas mesmo assim, para quem não conhece segue uma explicação:
RPG é a sigla de Role Playing Game, ou Jogo de Interpretação. Nele uma pessoa, chamada Mestre do Jogo, cria uma história aberta dentro de um universo determinado e outras criam personagens que usaram de um sistema de regras e muita atuação para vivenciar essa história. O mestre então comenta aos jogadores o que os personagens estão vendo e eles decidem o que estes últimos irão fazer. E é o sucesso ou fracasso destas ações que determinam como a história acontece.

Como eu já coloquei anteriormente, o personagem é um dos pontos que mais se destaca neste tipo de adaptação. Isso, porque ao contrário do que acontece num RPG, em que o jogador cria seu personagem, forjando de maneira automática uma empatia, na literatura os personagens são criados por outra pessoa, de modo que essa ligação deve ser criada conscientemente e mantida durante a história.

A história, ou FALA SÉRIO!, como ela é contada é o segundo ponto crítico. Isso, pois no RPG na maioria das vezes a ação tem primazia sobre a história. Deste modo não só as ligações entre os protagonistas muitas vezes não tem lógica, como também as razões pelos quais os personagens começam a se aventurar, o conhecido “chamado para aventura”, acontecem de maneira caricata, forçada, muitas vezes se tornando, inclusive, um grande clichê. E é como dizem: “se o leitor não for fisgado do início, já era!”.

Alguns exemplos, velhos conhecidos de jogadores de RPG, são: os personagens se encontrarem numa taverna e lá prometerem ajudar uma donzela indefesa (que ninguém explica a razão de estar numa taverna). Ou pior, se endividarem num jogo (normalmente viciado) e serem levados a ajudar seu credor. Ou ainda serem contratados por alguém para uma aventura em troca de espólios ou algo assim, o que faz deles não muito diferentes de mercenários, o que uma vez mais atrapalha no processo de identificação do leitor.

Outro ponto é que o escritor normalmente quer contar a versão do personagem, de modo que esquece ferramentas que aguçariam a curiosidade do leitor. Isso quando não vão para o lado inverso e tentam contar até a história dos personagens secundários, o que cria uma quantidade imensa de nomes e pessoas estranhas que faz com q que leitor se perca.

Isso sem contar que a maioria dos jogadores/escritores quer ser purista na adaptação, de modo que não sabe tirar ou mesmo adaptar os personagens, de modo que terminamos com elementos que um leitor que não conhece o RPG ou não joga o sistema, não faz ideia do que seja. FALA SÉRIO! Eu me recordo de que quando fiz a adaptação de minha aventura me foquei somente em dois dos inúmeros protagonistas e adaptei não só a ambos, transformando o paladino num cavaleiro e a elfa numa princesa saxã, como coloquei a história no ciclo arturiano, que a maioria dos leitores já ouviu falar. Então, se você for adaptar seu jogo de RPG não se esqueça de analisar os diversos elementos que terá de modificar para que sua história não seja interessante só para um pequeno grupo.

Nada contra adaptações, mas se você não for um escritor profissional e não tomar muito cuidado poderá terminar com um livro com uma faixa de público extremamente reduzida, o que é péssimo! Uma boa ideia aqui é analisar adaptações para o cinema, em que inúmeros personagens e partes da história que não são essenciais simplesmente desaparecem. Afinal mídias diferentes demandam modos dispares de se contar a história. Simples assim!

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