por Thaís Averaldo

Algo que sempre me encantou na leitura é o poder que ela tem de mexe com o emocional, há livros nos faz querer terminá-los logo por ter uma trama tão misteriosa que queremos desvendar todos os mistérios ou por ser mal escrito que desejamos procurar outro o mais rápido possível. Outros são tão engraçados que gargalhamos como loucos, há ainda aqueles fazem suspirar com uma bela história de amor. Entretanto, existe aqueles que nos dá bolo na garganta, no enche de revolta, repulsa e asco. E é nessa última categoria que se enquadra “Não Conte Para a Mamãe”, cuja história narrada é da autora do livro, Toni Maguire, que sofreu abusos pelo pai dos seis aos quatorze anos.

 

O livro é narrado por Toni, uma Antoinette crescida que decide adotar o apelido para tentar esquecer tudo pelo que passou e tentar ser alguém que não vive presa ao passado. Sua mãe, a mulher que ela tanto amou e a traiu da pior maneira possível, está morrendo e ida de Toni ao hospital para acompanhar a mãe em seus últimos momentos, na esperança de conseguir um pedido de perdão, faz com que a “caixa de Pandora” que sua mente abra e liberte lembranças dos terríveis momentos que viveu. Temos passagens narradas em forma de lembranças do passado e outras são do leito de morte da mãe de Toni.

 

Antoinette era uma criança linda, feliz e mimada pela mãe, que criava a filha sozinha pois seu marido tinha se alistado no exército na Segunda Guerra Mundial, o pai da garotinha era mais um estranho que propriamente um pai. Mas quando a Guerra acaba e ele volta para casa as coisas começam a mudar, primeiro a família de Antoinette se muda da Inglaterra para o país natal de seu pai a Irlanda do Norte, é lá onde todo o tormento da garotinha começa.

 

O pai de Antoinette não é taxado como viciado em jogos e alcoólatra, mas os indícios estão todos lá e você acaba por concluir isso durante a leitura. Se os vícios não bastassem outra “doença” começa a aparecer quando sua filha tem seis anos. Num dia ele a beija, não um beijo entre pai e filha e sim um beijo francês, e manda que ela “não conte para a mamãe”; entretanto Antoinette não mantêm sua promessa e conta a mãe, que manda que ela nunca fale isso novamente. Após o beijo e o silencioso consenso materno o pai passa a levar a filha para “passeios” de carro, que terminam num galpão, alugado por ele com a desculpa de trabalhar como mecânico mas realmente usado para estuprar a própria filha.

 

Abri o post falando sobre livros despertarem sentimentos, então vamos aos sentimentos que esse livro despertou em mim e garanto que não tive bons sentimentos em nenhum momento. A primeira coisa que senti foi repulsa por saber que existe no mundo pessoas capazes de abusar sexual e psicologicamente de um ser inocente e indefeso como uma criança. Se saber que existem pessoas capazes de tamanha barbárie já é repugnante o sentimento se intensifica quando o monstro é uma pessoa que teria o dever de proteger.

 

Entretanto, nesse livro você não sente asco somente pela figura do abusador, em muitos momentos não sabia se sentia mais aversão por ele ou a mãe – se é que posso chamá-la por esse nome. Uma mãe que fala para a filha nunca mais repetir aquilo e depois passa a não dar roupas novas para a menina, não permitir que ela se arrumasse para ir à escola, por exemplo, me fizeram pensar que ela culpava a garotinha pela perversão sexual do marido em sentir desejo sexual por uma criança. Há momentos, quando Antoniette cresce um pouco, em que ela até mesmo chega a falar para a menina se “esforçar mais para agradar o pai”, fiquei pensando se ela quis dizer sexualmente ou para a garota se comportar, coisa que a menina fazia mas com a figura abusiva do pai deixar por exemplo roupa fora do lugar era motivo para que ela apanhasse.

 

Se já havia me repugnado por tudo o que falei, nada me repugnou mais do que a atitude da mãe quando fica sabendo que Antoinette está grávida aos 14 anos e do próprio pai, porque ao invés de se colocar depois de muito tempo no papel de mãe ela se põe no papel de vítima e encara tudo como se foi a filha a real culpada por ter um pai pervertido, e com isso arruma tudo para que a adolescente faça um aborto que quase a mata. Fiquei realmente pensando se a mãe vivia num mundo que girava tanto ao redor dela que era alheia a tudo ou que ela simplesmente ignorou todos os sinais que o comportamento da filha deu de que sofria abuso sexual.

 

Senti revolta quando li sobre o tratamento que a sociedade da pequena cidade da Irlanda do Norte deu a Antoinette, acusá-la de ser tão culpada quanto o pai pois “aquilo” não aconteceu só uma vez e sim por 8 anos antes que ela falasse, tive vontade de voltar ao passado e espancar as pessoas que falaram tal absurdo. Fico pensando se alguém que passasse 8 anos ouvindo toda a tortura psicológica a que a garota foi exposta seria capaz de falar da primeira vez, coisa que ela fez mas foi silenciada pela própria mãe. Tentei me colocar na situação de ser a década de 50, um país conservador e ainda numa cidade interiorana, mas não consegui – achei absurdo ter que ouvir pessoas perguntando se ela sentiu prazer alguma vez durante os 8 anos de abuso.

 

Sinceramente não sei se faria o que Toni fez nos últimos dias da mãe, realmente não sei se seria capaz de passar por cima de tudo o que aconteceu e ainda dizer que não esperava perdão da mãe para ela morresse em paz. Acho que ela é uma pessoa melhor do que eu, penso que se fosse eu no lugar dela e se soubesse que minha mãe tinha conhecimento de todo o abuso, tratou a mim como mentirosa quando tentei contar, agiu como alguém conivente e ainda que amou mais ao marido que a própria filha, chegando ao ponto de passar anos esperando que ele saísse da prisão após ser condenado pelo estupro da própria filha. Volto a dizer que não sei se tenho tanta compaixão em mim, se seria capaz de perdoar a pessoa que tinha o dever de me proteger e me traiu de forma vil.

 

Outro sentimento que o livro despertou em mim foi um sentimento gigantesco de gratidão, primeiro a um ser superior que vivo duvidando da existência que me fez ter pais maravilhosos e segundo aos meus pais, é claro, por terem me dado uma infância cheia de amor, proteção,  segurança, a certeza de que fui desejada e que nunca fui uma intrusa na minha própria família.

 

Sobre o livro num todo ele é ótimo apesar do tema, bem escrito e a revisão também não deixa a desejar. Recomendo o livro para pessoas que não se importam de ler sobre temas fortes, se você não gosta não leia leia. O livro não tem cenas explicitas de nada, mas num tema como esse o menor detalhe é sempre muito.

Capa, ficha técnica e sinopse

Não Conte Para a Mamãe

Memórias De Uma Infância Perdida

Don’t tell mummy: a true story of the ultimate betrayal.

Toni Maguire
ISBN: 9788528615722
Editora: Bertrand Brasil
Número de páginas: 308
Encadernação: Brochura
Formato: 16  X 23 cm
Ano Edição: 2012

Sinopse

“Não Conte para a Mamãe” é o relato assustador e, ao mesmo tempo, tocante da pequena Toni Maguire, negligenciada e traída por aqueles em quem mais deveria poder confiar. Um livro de difícil leitura, mas fundamental nos dias de hoje.

Violentada constantemente pelo pai, chegando a engravidar, Toni resvalou a completa destruição. Sua recuperação e seu reconhecimento como escritora servem de exemplo para crianças e jovens vítimas, todos os dias, de abusos sexuais, mostrando-lhes que é preciso lutar contra essa condição e que é possível vencer a luta.

Boa Leitura

Thaís Averaldo