Fome e abandono

Por Mário Feijó*

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Neil Gaiman é o autor que tornou a Morte pop. Na década de 1980, os fãs de quadrinhos se dividiam: de um lado, a Morte na sua versão Marvel, a clássica senhora com sua foice, assustadora e macabra, amante infiel do vilão Thanos; já na DC, a editora concorrente, na série Sandman, havia a irmã do Sonho, e ela era a mais descolada dos Perpétuos, era uma garota legal, uma amiga bacana que te espera o tempo que for preciso. Boa conselheira, ela sabia dar as melhores dicas sobre o significado da vida. Logo se tornou um símbolo pop entre os jovens daquela década. De lá para cá, Gaiman continuou escrevendo sobre viver e morrer, sobre medo e esperança, sobre identidades e famílias, sobre amor e confiança, sobre mitologias e folclores. Para leitores de diversas idades.

Em João e Maria, adaptação do clássico dos irmãos Grimm publicada pela Intrínseca, Gaiman mostra seu talento como adaptador, sendo fiel ao enredo consagrado pela tradição, mas renovando a linguagem da narrativa com seu estilo preciso e precioso.

Crianças não têm medo da morte, é uma abstração incompreensível para elas. O verdadeiro medo infantil é o abandono; também conhecido como a morte em vida. A solidão, aliás, é uma poderosa metáfora para o abandono, que é uma situação de pura vulnerabilidade. Crianças dependem dos adultos e quanto menores, mais dependentes são. Ser abandonado em um mundo que todos sabemos ser hostil e impiedoso, com fome, sede, sono, sujo, sem qualquer proteção contra possíveis abusos, é um pesadelo recorrente no imaginário infantil. E Neil Gaiman sempre foi um mestre em explorar medos primordiais.

Escrever sobre abandono em João e Maria, ou em Coraline, é escrever sobre medos básicos que qualquer criança tem. Inclusive aquela que habita adolescentes, jovens e idosos. Aliás, quanto mais a idade avança, mais o ser humano tende a valorizar suas vivências infantis, a relembrar antigos sonhos e pesadelos. Uma vida longa, bem longa, provavelmente nos fará depender dos filhos ou dos netos tanto quanto um dia dependemos de nossos pais. Assustador. Mas Gaiman sabe como transformar narrativas assustadoras em lições de sabedoria. É o que manda a melhor tradição da literatura infantil.

O filósofo Walter Benjamin, em 1936, escreveu que contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo. E que há uma grande perda quando as histórias antigas não são mais conservadas. Ele estava pensando na tradição da oralidade, nas narrativas que passavam de uma pessoa para capa_joaoemaria_Goutra, geração após geração, e então afirmava: o primeiro e verdadeiro narrador para todos nós é o conto de fadas. Benjamim fazia a defesa das narrativas que permanecem, daquelas que estão mais profundamente enraizadas no povo. O chamado conto de fadas, esse tal narrador primeiro e verdadeiro, veio de onde? Das histórias que camponeses contavam uns para os outros, reciclando outras histórias ouvidas em outros tempos e em outros lugares. Quase sempre eram contos de terror…

Antigos e populares, eles eram narrativas ouvidas desde os primeiros anos de vida, faziam parte da formação daquelas crianças que viviam no campo. Tinham a ver com alertar e instruir acerca de perigos, intrigas, injustiças, invejas, mentiras, enganos e terríveis crueldades. Começam assim: “Era uma vez…” ou “Foi há muito tempo…” Os enredos eram simples, sobre crianças que costumavam ter nomes comuns, famílias complicadas e desafios a superar.

Sabemos que o primeiro registro sobre os irmãos João e Maria (ou Hansel e Gretel, no original) data de 1812, quando a Alemanha ainda não existia como país, embora possuísse riquíssima tradição oral que muitos julgavam ameaçada pela urbanização e pelo progresso acelerado. Sendo assim, os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm decidiram que era necessário e urgente coletar e registrar por escrito os contos dos camponeses, pastores, barqueiros, viajantes e soldados. Assim, naquele ano de 1812, foi publicada a primeira edição de Contos para a criança e para o lar, a obra que imortalizaria os irmãos: os adultos Grimm e as crianças João e Maria.

No texto de Gaiman, não sabemos onde ou quando a narrativa se passa. Não faz diferença. Os bons tempos foram antes da guerra, antes da fome. Antes, não importava se a mãe, mesmo sendo muito jovem, era uma mulher amarga; havia comida. Depois, mesmo sem a família saber qual o motivo da guerra, ou entender quem estava contra quem, ou por que as colheitas eram queimadas e os fazendeiros mortos, a fome passou a ser a companheira de cada dia e de cada noite. Até que a mãe resolveu convencer o pai de que era melhor morrerem dois do que quatro. Questão de matemática. Bastava abandonar as crianças na floresta. Talvez fossem encontradas por alguém que as acolhesse e alimentasse. No futuro, o casal poderia ter outros filhos, em tempos melhores.

Para aquela jovem mãe, as últimas cerejas na cozinha eram mais importantes do que as crianças. Mesmo assim, os dois irmãos preferiam voltar para casa, para o único lar que conheciam, a ficar lá fora no escuro, com frio, com medo de ursos e lobos, ou o que mais houvesse na floresta. Havia uma bruxa, é claro. E ela também tinha fome. De carne. João e Maria continua um conto assustador duzentos anos depois.

Crianças vão gostar? Sim, elas ficam apavoradas e fascinadas.

Bruno Bettelheim considera que a fantasia aumenta o conhecimento da criança sobre o mundo e sobre os seres humanos, organiza emoções e pensamentos, ajuda a formar a personalidade. Experimentar o medo faz parte deste processo. Narrativas mágicas ajudam a criança a subir um degrau na sua maturidade psicológica. De uma boa história com mães malvadas e bruxas, essa criança capta as lições implícitas de confiança na vitória, de confiança em si mesma, apesar das barreiras aparentemente intransponíveis.

Outro trabalho importantíssimo sobre a permanência e o apelo dos contos folclóricos é o do crítico literário Wladimir Propp. Estudando principalmente os contos russos, ele decodificou uma estrutura quase imutável: a quebra da harmonia familiar, a busca da solução para o problema, os elementos mágicos, a volta para casa, a conquista da harmonia. E aqui está, talvez, o grande segredo: em última instância, o que as crianças mais querem é a harmonia familiar. Elas têm fome de proteção.

Talvez a sentença definitiva sobre o assunto seja a opinião atribuída a Cecília Meireles: as crianças pedem contos de fadas porque gostam.

Impossível os pais não gostarem do texto de Gaiman. E quem lê livros para os filhos sabe: eles vão pedir para você ler de novo, de novo e de novo. Será um prazer.

 

Mário Feijó é doutor em Letras e professor da Escola de Comunicação da UFRJ, onde ministra a disciplina complementar “Gaiman: do terror ao infantil”.

Texto do site Intrínseca