Olá! Hoje o texto é da querida Lilian do Lá no cafofo.

A carta

Detestava o Natal com todas as forças. Torcia o nariz para tudo que se relacionasse a data: ruas cheias. Lojas abarrotadas. Falta de lugares para estacionar. Correria, gente cheia de sacolas e pacotes trombando umas nas outras sem nem se dar conta.

E todo mundo esquecendo porque, afinal, o Natal havia sido criado. Não que ela mesma fosse religiosa – não era. No entanto, não deixava de ser irônico o quanto as pessoas focavam em presentes, comida e dinheiro, e não conseguiam olhar para o lado. Para o outro.

Para dentro de si mesmas.

Que se esbaldassem. A única coisa que ela gostava nesta época era justamente o dinheiro extra. Pena que tivesse que gastar com presentes também…

Droga, ela mesma estava ficando egoísta também. Na verdade, não se importava em presentear as pessoas amadas. Era só o caos das Festas que a incomodava demais.

Lembrava com saudade dos Natais de sua infância, quando tudo era inocência e esperança, quando havia um sentimento que distinguiria dentre todos, aquele que deixava tudo diferente. Ela o chamava de sensação de Natal. Era mágico. Era bom. E se perdeu com o tempo: alguns parentes morreram, outros se mudaram, ela saiu da casa dos pais. E mesmo passando esse dia com eles, não era a mesma coisa. Não era só o fato de que a criança que ela fora descobrira que não havia Papai Noel: o sentido do Natal se perdera também.

Por isso tudo ficava sem graça. Os enfeites e a decoração exuberante em toda parte não lhe diziam mais nada. Era como se algo tivesse secado dentro dela. Natal, agora, só existia para os outros.

Talvez estivesse ficando velha. Ranzinza antes do tempo. Ou passasse muito tempo sozinha.

Por todos os deuses! Estaria ela se tornando uma versão feminina do Grinch?

Decidiu sair mais uma vez. Ainda havia coisas a se comprar, alguns últimos presentes… Compras, compras, compras. Mas desta vez, entrando no shopping, gnorou a multidão. Olhou em volta, para as bolas e estrelas e anjos. Parecia querer procurar aquilo que ela havia perdido.

Parou perto da casinha, onde um pobre velhinho aturava as crianças, fazendo as vezes de Papai Noel. Talvez ele não fosse um pobre velhinho. Parecia ter tanta paciência com as crianças. Algumas mais assustadas do que qualquer outra coisa, chorando apavoradas. Algumas com ar sonhador, vendo na frente delas a fantasia que se tornava realidade, por raros segundos. Viu uma menina, com o olhar tão brilhante… para ela, o mundo era ainda puro sonho.

Era o sonho que ela mesma havia perdido, há tanto tempo…

Ao lado das ajudantes do Papai Noel – aquelas mocinhas sorridentes – havia uma caixa. Estavam recolhendo cartinhas. Então, ela rabiscou qualquer coisa numa folha do caderninho que guardava consigo. A multidão, que tanto a incomodava, agora a protegeria. Ninguém iria notar que ela estava colocando uma carta na caixa.

Não custava nada pedir ao Papai Noel que lhe devolvesse a magia do Natal…

Lilian

 

 Lilian – Blog Lá no cafofo @Lanocafofo