Hoje o texto é da Lilian!

Mais um Natal para Catherine. Outra noite de festa, de sorrisos e presentes e cantoria.

Para os outros.

Há muitos natais, Catherine não sabia o que era Natal. Não queria saber, na verdade. Longe ia o tempo em que tivera noites de festa, de pessoas em torno da mesa e da árvore, trocando presentes. Toda a magia daquela ocasião esperada se perdera em algum momento de sua vida – e não tinha exatamente a ver com a descoberta de que Papai Noel era uma farsa.

Perdera-se a tal ponto na amargura que não conseguia lembrar-se de quando tinha sido o momento em que deixara de se importar. Nada mais de enfeites ou cartões, ou festas ou coisa alguma. Passava as noites sozinha em sua casa. Tinha amigos, mas não ousava infiltrar-se na casa deles quanto todos estavam em família. Fingia que não via os cartões cheios de votos e desejos de felicidades que o Correio lhe entregava – e não respondia nenhum.

Ninguém lhe desejava felicidades simplesmente por gostar dela, a qualquer época do ano.

Sentia-se irritada com toda aquela alegria. Não queria sentir-se como o Grinch, que detestava o Natal e fazia de tudo para estraga-lo, mas não conseguia engolir aquela obrigação toda de ser feliz.

Não havia como ficar feliz só porque uma data fixada no calendário pelos homens se aproximava. Ser feliz tinha muito mais a ver com a atitude do que com datas. Bem, era o que ela pensava.

Foi assim que, naquela semana, poucos dias antes do Natal, Catherine deixara sua casa e enfrentara a neve. Não tinha paciência para dirigir. Ia a pé, as botas afundando na camada branca e espessa, o barulho familiar das passadas esmagando o tapete gelado sob seus pés. Eram as últimas compras que faria antes que houvesse gente demais e comida de menos nas prateleiras. Todos se empanturrando com guloseimas. Todos comprando além da conta.

Todos gordos, gulosos, felizes e mais pobres.

Já dentro do supermercado, empurrava o carrinho, olhando distraidamente para as prateleiras, tentando repassar mentalmente a lista do que precisava. Tanta gente ao redor e era como se não houvesse ninguém. Ocasionalmente lembrava-se das pessoas pelo barulho que faziam. De resto, a mente sempre em algum lugar distante, em um universo paralelo. Catherine não pertencia àquele lugar.

Foi quando o viu. Não podia acreditar no que seus olhos lhe mostravam.

Peter, seu amigo de há muito tempo atrás. Mais que um amigo, talvez. Mas aquilo não importava. Fora a pessoa mais importante de sua vida, e o destino arrastara a ambos em direções diferentes, como a correnteza do mar.

Catherine ficou paralisada. Depois de tantos anos, ele não era mais o mesmo… Mas parecia o mesmo. O tempo lhe castigara as feições, mas de certo modo, era o Peter de sempre.

Levou a mão ao peito. Deveria ir lá falar com ele? O que diria? Como se aproximaria? Olhou para o chão, confusa. Depois levantou de novo o olhar, com medo de perdê-lo na multidão.

Não precisou. Peter a olhava com a mesma expressão espantada, como se também não acreditasse. Mas a alegria de Catherine não durou muito tempo. Logo apareceu uma jovem, que o levou pelo cotovelo, e os dois perderam-se na multidão.

Já em casa, ela guardava tudo automaticamente. Tinha sido assim na fila, e no caminho para casa. Tinha tanto a dizer a Peter, e era como se a oportunidade tivesse escorregado de suas mãos. Que piadinha de mau gosto a vida lhe fazia, enviando um presente de Natal desses: rever alguém querido e perde-lo no mesmo instante.

Ouviu a campanhia. Arrastou-se até a porta da frente para atender, e pode ouvir que alguém entrava num carro e partia. Ao abrir a porta, um envelope. Dentro, uma velha chave.

Seria possível que aquela casa ainda existisse?

***

Na véspera de Natal, Catherine caminhava de novo pela neve, as mãos cheias de sacolas. Aquele seria um dia diferente. Tantas lembranças desde que vira Peter. Podia ainda não amar todo aquele frenesi de festas, mas daria a si mesma um presente. Não estaria sozinha. Tinha suas memórias.

E aquela chave talvez fosse uma chance do destino, não?

Abriu a casa velha, uma cabana meio perdida na neve, não muito longe de onde morava – mas ela nunca ia lá. Tinha medo da tristeza das memórias. Limpou-a como pode. Acendeu a lareira. Cozinhou, e não era exatamente uma ceia. Colocou uma toalha simples sobre a mesa de madeira rústica. Encheu sua taça de vinho. E deixou o tempo passar.

Provavelmente dormira, porque a noite já se fazia escura lá fora. Era possível ver, à distância, as luzes dos enfeites das casas vizinhas. Quase dava para ouvir o som da felicidade alheia. E o que a despertara foram batidas na porta. O mesmo som conhecido das batidas naquela porta, de tantos anos atrás. E o mesmo sorriso, crestado de rugas,  mas ainda com a mesma luz da juventude.

–Sabia que estaria aqui.

Catherine estendeu a mão para Peter. Sem dizer nada, entraram. Comeram o mesmo bolo de nozes e os sanduíches que eram seu jantar quando, há muitos anos, encontravam-se furtivamente ali, naquela cabana. Beberam sem se embebedar. A emoção preenchia a velha casa, afugentando as palavras.

Por fim, sentaram-se em frente à lareira, e ficaram olhando para o fogo, de mãos dadas. Depois de tanto tempo, estavam em comunhão sem nada dizer.

Não precisavam de mais nada, pois tinham novamente um ao outro. Aquele pequeno lugar encheu-se de amor… exatamente como devia ser todo Natal.

 

 Lilian

 

 Lilian – Blog Lá no cafofo twitter @Lilian_escreve