Por Gianpaolo Celli, consultor do Aliteração Serviços Literários

Esta semana eu estava fazendo um coaching literário e, como achei o assunto relevante, resolvi dividi-lo aqui com vocês. O autor, no caso um jogador e narrador de RPG, queria transpor seu jogo e seu mundo para literatura e, como estava com algumas questões sobre como trabalhar a respeito, procurou o Aliteração.

FALA SÉRIO! Isso não só me recordou a colocação de um dos textos técnicos a respeito de criação literária que li recentemente, perfeita para a questão, como também uma conversa que tive após a Oficina Gênese – a criação de mundos fantásticos que ministrei em 2008 na segunda edição da Fantasticon onde uma pessoa declarou que queria fazer exatamente a mesma coisa.

A colocação em questão argumentava, com toda a razão, que não era o mundo que deveria ser criado em volta de sua história e de seus protagonistas, mas o inverso, que ele deveria ser criado para então moldar a história e os protagonistas. Ou seja, ao invés de simplesmente criar as cidades e os territórios por onde a história fluirá, crie os reinos, as florestas, componha os Estados, a política, mesmo a cultura destes reinos, para que com isso eles se tornem reais. FALA SÉRIO! O contrário disso será que eles serão bidimensionais, como os cenários das produções de cinema e TV, em que quando se entra numa casa, ou sai de uma sala, não há nada.

Na literatura isso não pode acontecer. E isso não só na Fantástica, em que a criação da realidade onde a história se passa é essencial. Mesmo na ficção mainstream, em que escrevemos em nossa realidade, é necessário se conhecer o “universo” sobre o qual se está escrevendo.

Não importa se a realidade é macrocósmica, como o mundo de uma fantasia medieval, ou microcósmica, como um bairro, uma cidade ou mesmo o núcleo familiar ou profissional de uma pessoa, a realidade precisa ser completamente determinada. Senão diversos aspectos da história podem se tornar inverossímeis ao leitor.

E no caso de criações macrocósmicas ainda iria, ou vou, mais longe e digo: crie, mesmo de uma maneira geral, toda a história de seu mundo.

FALA SÉRIO! Eu me lembro de como, nos velhos jogos de RPG, as religiões, por exemplo, serviam somente como pano de fundo para os poderes dos clérigos ou magos, sem muitas vezes ter lógica nelas mesmas. Para diversão de um jogo até funcionava, mas para um livro…

Então, quando você criar um mundo, pense originalmente nos estados de desenvolvimento da humanidade (assim como de qualquer outra raça que você queira colocar em sua história): Idade da Pedra, Idade do Bronze, Antiguidade… FALA SÉRIO! Pesquise e se baseie no que era desconhecido para aquelas pessoas, em suas crenças, nas etapas de evolução social, para criar a origem dos deuses e deusas se baseando nas coisas que eles desconheciam, temiam ou veneravam. Seja o Sol, a Lua ou as Tempestades; a Caça e a Colheita; os Campos e Montanhas ou Rios e Mares; o Verão e o Inverno, a Primavera e o Outono… E mais tarde, deuses Ferreiros e deusas da Guerra, então do Conhecimento, da Escrita e das Cidades.

E isso é só o começo, porque após criar a geografia, crie os povos e imagine-os todos se desenvolvendo desde um “inicio dos tempos”, de modo a criar um corpo de tradições para cada cultura, cada raça. E faça tudo isso se baseando em mitologias e culturas existentes em nossa própria história. Pois só assim a criação será algo real, e não uma simples cópia de algo já existente, não importando se em nossa história ou na história publicada por algum autor.

Como sempre digo: “todo escritor deve antes ser um grande leitor”. Isso, pois só lendo você saberá o que acontece no mercado, só lendo treinará sua imaginação, só lendo você aprenderá a escrever. Porque não adianta copiar, se basear ou encher seu projeto de “referências”, pois isso fará com que seu livro se torne só “mais do mesmo”, sem nada de novo à mostrar ao leitor.

Então, ao ter a ideia, ao desenvolvê-la e após terminá-la, procure responder a uma questão básica em relação a seu texto: “o que ele oferece ao leitor que ninguém mais oferece?” Porque de cópias descaradas o mundo já está cheio!